quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A CONDIÇÃO HUMANA E O FENÔMENO RELIGIOSO



1 O SER RELIGIOSO DO HOMEM
1.1 O que é Fenômeno Religioso?
. FENÔMENO: A palavra fenômeno é de origem grega e significa o que se manifesta, o que aparece, aquilo que aparece. Por isso, fenômeno é tudo aquilo que aparece aos nossos sentidos. Tomado o termo nesse sentido, a FÉ não é fenômeno religioso.

. RELIGIOSO: O religioso é o conteúdo interior da alma humana que está por detrás dos fenômenos. É o aquilo do que aparece. Por detrás da manifestação está um significado religioso (sentimento numinoso) que se expressa de forma simbólica. O caráter religioso dos fenômenos é um significado que remete ao mundo espiritual, para além de toda realidade material. A intencionalidade religiosa expressa a relação do homem com o Transcendente. O que na linguagem religiosa denominamos , é o que dá o caráter religioso aos fenômenos.

- Etimologia: Re-Legere (re-ler): ler de novo ou reunir; Re-Ligare (re-ligar): ligar o homem a Deus; Re-Elegire (re-eleger): tornar a escolher.

1.2 Fenômeno religioso universal
            A Antropologia Cultural nos atesta o fato da universalidade do fenômeno religioso. Em todos os tempos, lugares e culturas encontramos manifestações religiosas. Dito de forma negativa: nenhum povo de qualquer época que se conheça deixou de ter em suas expressões culturais manifestações religiosas. Desde os povos pré-históricos tem-se notícias da religiosidade humana. A forma de organizarem as suas sepulturas, as pinturas nas cavernas, utensílios revelam suas convicções religiosas. A passagem da pré-história para a história é marcada pela escrita. Os primeiros escritos são religiosos. KIRGAMESCH é o texto escrito mais antigo que se conhece. O poema religioso sumério conta a lenda da árvore da ciência do bem e do mal, que volta a ser utilizado no texto bíblico da criação.
            Outro dado da Antropologia é que o fenômeno religioso é especificamente humano. Ludwig Feuerbach escreve em seu livro A essência do cristianismo: "A religião baseia-se na diferença essencial que existe entre o homem e o animal. Os animais não têm religião" (FEUERBACH, 1988, p. 4).
            Charles Darwin, evolucionista e antropólogo, descobriu no séc. XIX a tribo YAMANA, na região da Patagônia. Por vários meses viveu e observou os YAMANA. Constatou que entre eles não havia nenhuma representação de divindade. Aí escreveu um artigo: Os homens que não precisam de Deus. Ele ainda estava na Patagônia quando o SOL apareceu, inutilizando seu artigo. Os YAMANA, de joelhos, adoravam o SOL que reaparecera. Aí Darwin descobriu que eles eram profundamente religiosos. Essa ausência de manifestações religiosas era motivada por fidelidade a seu deus SOL na sua ausência. Os ritos religiosos só recomeçam quando seu deus volta a aparecer. É um caso típico que mostra a universalidade do fenômeno religioso.

1.3 O começo da religião
            No século XIX constituíram-se grande parte das ciências humanas. Dentre as muitas perguntas sobre o homem está a questão da origem da Religião. Nesse esforço surgiram inúmeras teorias no âmbito da Antropologia cultural, da Psicologia, da História, da Sociologia.
            Falar da origem histórica da religião nos remete às religiões pré-históricas. As pesquisas arqueológicas nos permitem falar de práticas religiosas a partir da emergência do homo sapiens (130.000 a 200.000 anos atrás). É possível descrever a religião pré-histórica pelos cultos às ossadas, pelas práticas mortuárias e pelas técnicas e artes. Na era do paleolítico já havia um sistema religioso complexo com muitos mitos e rituais.
            O começo da religião coincide com a origem da cultura. A cultura humana teve seu início a partir do desenvolvimento de mente primitiva, que adquiriu uma complexidade tal que permitiu operar analogicamente. Quer dizer, o homem pré-histórico tornou-se capaz de transferir uma experiência para uma outra realidade. Segundo Leroi-Gourhan, a evolução para a fluidez cognitiva está na origem da religião. A mente humana tornou-se capaz de associar imagens e idéias e interpretar o mundo.
            A forma dos antigos significarem o mundo era eminentemente o sagrado. A religião acompanhava as atividades cotidianas – a caça, a pesca, a colheita – sobretudo as situações-limite, especialmente a morte. Nas sepulturas estão muitos indicativos de ritos funerais que expressam a busca de um significado para a morte e da crença no pós-morte.
            Esse retorno aos antigos nos faz compreender a religião como uma espécie de “metáfora da vida real”, que permite dar um sentido à existência – a qual não escolhemos – e ao limite que se impõe à própria existência. Os elementos simbólicos da religião permitem construir o mundo, um horizonte de sentido, dentro do qual a vida material e social está organizada (mundo).

1.4 Religião e cultura
            O homem se distingue do animal por uma capacidade de dizer não; de aprendizagem; de raciocínio; de admiração; de criar cultura e história. O homem sabe que existe, pode dizer EU. A essa capacidade os gregos chamavam espírito. Com sua capacidade espiritual, o homem constrói o seu mundo, a cultura. Nesse mundo cultural, o homem criou ritos, crenças, mitos, religiões, divindades.
            As organizações religiosas possuem e administram um bem simbólico. Em outros termos, é um sistema de significados, mitos, ritos, normas e papeis que oferecem um caminho de salvação para seus adeptos.
            O significado simbólico refere-se a um conteúdo religioso, sagrado. É a linguagem do duplo sentido, um sentido primário, direto que remete a um sentido secundário, imaterial, abstrato. Um acontecimento do dia-a-dia é revestido por um sentido transcendente, sobrenatural. Assim, a vida do cotidiano dos fieis passa a ter sentido, tendo em vista a esperança de salvação numa realidade que ultrapassa a vida terrena.
            A prática religiosa, embora remeta a um mundo sagrado, está intimamente ligada à vida humana. As organizações religiosas têm uma inter-relação vital com o organismo social. Toda religião se expressa num ambiente cultural. Os significados religiosos podem ultrapassar a cultura, mas suas práticas necessariamente passam por ela.
            As atividades econômicas, de sobrevivência também são significadas religiosamente. Entre os primitivos, os povos caçadores e pastores organizavam suas representações a partir do céu. A caça é feita de dia; o amanhecer e o anoitecer têm um significado especial, daí o culto ao Sol. Os povos agrícolas organizavam suas crenças, tendo como referência a terra. O cultivo da terra leva a personificação das forças da natureza em espíritos e divindades. Os ciclos da natureza estão fortemente ligados à rituais. A marcação do tempo, os calendários têm uma função sagrada.

1.5 Religião e sociedade
Cultos familiares
            A organização da sociedade e a organização das religiões se dá dialeticamente, quer dizer, há uma influência de uma sobre a outra. Essa troca pode ser em sentido positivo, quando há uma continuidade entre seus modos de organização, e em sentido negativo, quando uma se organiza negando a outra, como o caso da sociedade moderna.
            Nos povos primitivos os cultos familiares exerciam um forte papel de integração da família, menor organismo social. O culto familiar organizava as funções regulares e naturais como comer, acasalar, brincar e trabalhar. As cerimônias religiosas no interior da família normalmente assumem a forma de oração. O pai ou a mãe as presidem. Na família egípcia a vida familial centrava-se em torno da dona-de-casa, pois a mãe é a “regente doméstica”, “o foco da casa”. O pai, na família grega, era o guardião natural e representante da família diante dos homens e diante dos deuses. A sociedade familiar constitui sua unidade pela observância religiosa comum. Na cabana familiar as pessoas nascem, casam-se e morrem.
Cultos de parentesco
            No mundo antigo houve grande variedade nos tipos de família. As famílias aumentaram suas fronteiras de identidade para uma sociedade de parentesco (gens ou sibs – clãs). A unidade entre um certo número de sibs forma uma fratria ou tribo. Em torno da autoridade religiosa do patriarca (pai da tribo) se forma a unidade da tribo. Basta lembrar a importância fundamental de Abraão na origem das tribos de Israel.
            As sociedades antigas evoluíram para a forma de nação. Já os patriarcas tinham um poder quase ilimitado. Nas nações, o rei passa a exercer essa centralidade. Ele é o chefe civil e religioso do povo. O poder do rei vem diretamente de Deus e em muitos casos o próprio rei encarna a divindade.
Secularização – Sociedade moderna
            Na sociedade moderna a integração social se dá por negação da centralidade religiosa, a secularização. É um processo de dessacralização da cultura. Maquiavel ensina em seu livro O príncipe (1513), que a política é a arte de ascender ao poder e nele permanecer. Essa arte é exercida pelas capacidades humanas e não por uma emanação divina. Galileu (1564-1642) mostra que é possível fazer ciência partindo da observação e dos recursos da razão humana. A economia se organiza a parir das leis de marcado. O ateísmo prega que é possível viver sem Deus e sem religião. Pode existir religião, mas a religião dos homens, onde “o homem é deus para o homem”, no dizer de Feuerbach.
Retorno ao sagrado
            Até o final do século XIX reinou esse credo iluminista de que a ciência, apoiada na luz da razão humana, iria resolver todos os problemas da humanidade. Esse credo pode ser resumido em duas palavras: Ordem e Progresso.
            As duas guerras mundiais na primeira metade do século XX sepultaram essa ideologia positivista da ciência. Nos anos setenta já está claramente delineado um forte retorno ao religioso. Esse retorno ao sagrado não é necessariamente um retorno às religiões tradicionais. É um retorno ao mistério, às forças ocultas do sagrado. É uma espécie de “aventura do sagrado”. Os novos movimentos religiosos se multiplicam em proporções geométricas. Nos anos noventa se dizia que na Baixada Fluminense surgia uma igreja pentecostal por dia. Talvez não fosse assim, mas não muito diferente. São, na maioria, organizações religiosas extremamente dogmáticas e em alguns casos fundamentalistas. Basta lembrar o episódio de Jim Jones, fundador da igreja Templo do Povo, que levou 909 pessoas ao suicídio na selva Guiana em 1978. Essa nova religiosidade busca um modelo de vida e de sociedade às avessas aos modelos bem organizados de sociedade da racionalidade moderna. Talvez seja uma busca pelo lado místico e misterioso da própria sociedade moderna e não por suas leis racionais.

2. POR QUE O HOMEM É RELIGIOSO?
            As tentativas de explicação do Fenômeno Religioso surgiram particularmente entre autores ateístas. Para as teorias ateístas a universalidade do fenômeno religioso tornou-se um problema. Numa visão tradicional tranqüila, a religião existe, por que Deus criou o homem e é natural que a criatura volte-se para o seu criador. Para o ateísmo, Deus não existe e, não existindo o fundamento da religião, o que pode explicar a sua existência? O desafio ateísta é encontrar uma causa para a origem da religião, que não seja Deus. Por isso, cada autor buscou encontrar uma teoria em base a sua ciência para explicar o fenômeno religioso, segundo o ponto de vista ateísta ou teísta.
. DURKHEIM: O indivíduo tem um profundo sentimento de dependência da sociedade. O homem projeta para o além, num deus, o sentimento de dependência da sociedade. Desde um ponto de vista ateísta e coletivista, Durkheim busca uma explicação socióloga para o fenômeno religioso.
. Augusto COMTE: A religião provém do medo, da ignorância ou pelo entusiasmo pelos fenômenos naturais, os quais se personificam sob a influência desses fatores. A religião tem três fases: 1º teológico (explicação pelos deuses); 2º metafísico (explicação com conceitos metafísicos); 3º positivo (explica pela ciência positiva).
. FREUD: A religião provém de uma neurose universal de culpa. Um patriarca tinha diversas mulheres e muitos filhos. Como os filhos não tinha participação nas mulheres, eles se uniram e mataram o pai e, repartiram entre si as mulheres. Mas, logo, veio o sentimento de culpa. Matamos nosso pai! Esse sentimento vai crescendo feito uma bola de neve. Procuram, então tranqüilizar a consciência. A forma de aplacar a força do sentimento de culpa é realizando sacrifícios. Nos sacrifícios o Totem representa simbolicamente o pai assassinado. O comer a carne do totêmico é a forma de fazer o pai viver neles, pois sua vida não é mais possível restaurar. Assim, a consciência culpada se acalma, se conforta.
. JUNG: A psique humana, na sua camada mais profunda, é religiosa, crística e teísta. O "Selbst", que é o arquétipo do fenômeno Deus, é o pólo centralizador de toda vida psíquica e habita o mais profundo da realidade humana. Quer dizer, que o homem tem dentro de si uma força, um dinamismo que o impele a Deus. Quando o homem recalca essa energia, durante um tempo prolongado, ele se torna neurótico. Se em Freud, a religião provém de uma neurose, em Jung, o recalque da força religiosa causa neurose.
. Rudolf OTTO: A religião é o encontro do homem com o sagrado - o NUMINOSO - uma característica exclusivamente religiosa. O NUMINOSO é uma estado de alma, um sentimento capaz percepcionar o sagrado entre os fenômenos. É uma capacidade que cada indivíduo tem de percepcionar o sagrado na forma do sentimento numinoso. É o estado emocional de MISTÉRIO TREMENDO E FASCINANTE, que se forma na alma quando algo de sagrado é percebido.
. MARX: A religião é o ópio do povo; é uma fantasia. Na alienação religiosa o homem projeta, fora de si, o seu ser essencial. A religião nada mais é que a projeção do ser do homem num mundo ilusório. Quando a sociedade tiver eliminado a miséria a religião desaparecerá. A teoria da alienação religiosa de Marx é fundamentalmente baseada na teoria da alienação de Feuerbach. Para esse, a verdadeira religião é a relação do homem consigo mesmo (espécie). Na alienação, o homem projeta fora de si, num deus ilusório, o que deveria ser ele mesmo.

CONCLUSÃO: Todas as explicações sobre o fenômeno religioso com, base nas ciências humanas, esclarecem alguma coisa. Mas, segundo Rubem Alves, "a história parece zombar das previsões científicas sobre as religiões e permanece o enigma do fenômeno religioso universal".

3. DIFERENÇA ENTRE RELIGIÃO E RELIGIOSIDADE
            Religião e Religiosidade são aqui tomadas como duas formas distintas de práticas religiosas. Nesse sentido, é possível alguém ter religiosidade sem ter religião; como ter religião sem ter religiosidade. Contudo, as duas formas de práticas religiosas vêm, normalmente, misturadas.

3.1 Religiosidade
3.1.1 Conceito:
            À Religiosidade pertencem todas as manifestações externas que expressam alguma dependência ou confiança num transcendente. Esse não é um Deus pessoal, sendo a relação com o intermediário. Na religiosidade não há pertença a uma comunidade de fé, sendo os atos religiosos específicos e sem rito padronizado.

3.1.2 Formas de Religiosidade:
1ª Magismo: Magismo vem de magia. Entende-se o esforço de conseguir a intervenção milagrosa de Deus.
Na religiosidade, a forma mais comum de magismo é a promessa. A promessa é feita para o santo (intermediário), que deve interceder pela realização do milagre. Tendo acontecido o milagre, o prometente vê-se obrigado a pagar a promessa. É uma espécie de mercantilismo sagrado. Mas a questão do pagamento traz a noção do sacrifício humano extremo. Como o milagre é algo extraordinário, o que se dá em troca deve ser algo fora dos parâmetros. O que se pode oferecer a Deus a não ser o próprio sacrifício.

2ª Manismo: Manismo é o culto aos antepassados falecidos e, muitas vezes, como deuses.
A religiosidade da antigüidade caracterizou-se fortemente pelo manismo. A religiosidade da pré-história é marcadamente manista. Assim também as civilizações mesopotâmicas e egípcias. As pirâmides do Egito são um testemunho exemplar da veneração dos mortos. Os romanos, na certeza da vida após a morte, levavam o REPASTO (alimento para o morte) para a sepultura no sétimo e trigésimo dias após a morte. Com a entrada do cristianismo, o repasto foi substituído pela missa de 7º e 30º dias. No Brasil, os índios tupis-guaranis tinham muito temor das almas dos falecidos.

3ª Fetichismo: A palavra fetiche significa objeto. Em termos de manifestação de religiosidade é o uso e a atribuição de uma força espiritual a objetos (amuletos).
            Os povos pré-colombianos usavam amuletos em profusão. Os escravos negros trouxeram da África várias formas de amuletos em forma de correntes e colares. Os índios usavam a pintura do corpo como forma de proteção contra as investidas do Jurupari.
            Os amuletos podem ser distinguidos como objetos de uso pessoal: fitinhas, figas, pés-de-coelho, velas, etc. Como objetos de uso em determinados locais: ferradura, buda, imagens, etc. Além disso, existem certos lugares com poderes especiais: montanhas, fontes, alguma árvore, etc.

3.2 Religião
3.2.1 Conceito: Religião é o conjunto de crenças, leis e ritos que visam a um poder supremo, do qual o homem se sente dependente e pode entrar em relação pessoal. Ou, a religião é um conjunto de crenças, leis e ritos que o homem assume ao aderir a um Deus-Pessoa.

3.2.2 Características da religião
            As características essenciais da religião a distinguem da religiosidade. Na religião há a tendência de estarem presentes as características e na religiosidade a sua ausência.

1ª Deus-Pessoa: Na religião, Deus é alguém. A relação religiosa é pessoal com um TU divino. Nas grandes religiões essa característica é marcante. Por isso, o Nome de Deus é central, pois expressa a relação pessoal. Nas orações e nos ritos o nome de Deus é solenemente invocado. Na história das religiões podemos distinguir diversas etapas na evolução do conceito de Deus-Pessoa.
a) Fase agrária: Essa fase às religiões ao tempo da agricultura como cultura de subsistência. É o período da pré-história da passagem da caça e da coleta de frutas para a agricultura. Os deuses eram divindades cósmicas (sol, lua, astros), que se manifestavam pelos fenômenos da natureza (trovão, relâmpago, chuva). Era a forma das divindades mandarem a fertilidade, o nascimento, a vida e a morte. Os rituais correspondiam às diversas fases da agricultura (plantio, colheita). A relação com as divindades se dá por sua presença física.
b) Fase animal: Essa fase corresponde ao período em que o homem começa a usar os animais como força de trabalho e para a sua alimentação, na pecuária. As divindades passam a ser animais. Em geral, os animais que tinha um significado especial em sua subsistência. Aos poucos as divindades animais vão se proliferando, gerando um grande politeísmo. O exemplo mais eloqüente é a religião egípcia. A relação com a divindade torna-se ainda mais próxima. Mais recentemente essa forma de concepção de deus vai evoluir para o antropomorfismo, que eram figuras meio humanas e meio animais. O exemplo mais clássico se encontra na mitologia grego, nos mitos de Homero.
c) Fase profética: Essa fase remete ao surgimento da figura dos profetas nas religiões, como Moisés, Buda, Maomé. Os profetas falam em nome de Deus. A divindade passa a ser compreendida como um Ente no plano invisível. Não mais é um elemento do mundo. Por isso, o nome passa a ter um valor central. Deus não é nenhuma entidade visível, mas é alguém, pois tem nome.

2ª Corpo doutrinário: Cada religião tem uma doutrina, que é o ensinamento da fé comum da comunidade religiosa, por isso é um corpo, um conjunto orgânico. Alguém só pode ser FIEL a partir de uma doutrina comum. O que distingue uma religião de outra é justamente a sua doutrina. A doutrina de uma religião normalmente a encontramos em um Livro Sagrado: Vedas, Alcorão, Torá, Bíblia.
            A doutrina apresenta e fundamenta as grandes esperanças de uma fé religiosa, que deve dar um sentido à vida, ao sofrimento e à própria morte. A fé religiosa se caracteriza em buscar as razões de sua esperança para além da morte, numa transcendência. Além disso, a doutrina especifica princípios éticos e códigos morais em vista da realização da esperança transcendente, dos valores que a constituem.

3ª Dimensão comunitária: A religião é essencialmente comunitária como toda instituição cultural. Ela se compõe de uma comunidade de crentes. Essa comunidade se constitui de membros, que nela entram através de um rito. O batismo para os cristãos, como a circuncisão para os judeus é um rito de entrada e de pertença à comunidade de fé.
            Não é possível ser religioso sozinho. Todos os atos da religião são realizados numa comunidade de fé. Mesmo os atos individuais são atos que a comunidade de fé lhe pede. A vida da religião acontece em comunidade: as celebrações, os ritos, as festas, os compromissos éticos, a vivência e a responsabilidade.

4ª Culto padronizado: Na religião o rito central é padronizado. Trata-se de um culto oficial que, no essencial, será idêntico em todas as partes do mundo, independente de língua e cultura. Em alguma religiões o culto é uniformizado, sendo igual em todos os aspectos no mundo inteiro. Um rito padronizado permite adaptações; é mais flexível.
            Toda religião tem festas e um modo universal de celebrá-las ou, ainda, os momentos chaves da vida são celebradas de forma padronizada. Os ritos, como a pertença a uma comunidade, são fatores de identidade religiosa. A forma de celebrar caracteriza um grupo de fiéis e esses, por sua vez, se identificam com uma religião.

4. ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DAS RELIGIÕES
4.1 Mitos
            Os mitos são enredos em forma de fábula, que visam explicar fenômenos da vida e marcar uma forma exemplar de comportamento. Os mitos são uma narrativa fora do tempo ou antes do tempo. São enredos que contam a origem das coisas. Essas origens sempre remetem a uma divindade.
            Os mitos usam uma linguagem simbólica. O símbolo é toda expressão de duplo ou múltiplo sentido. O sentido primário, direto remete a um sentido secundário ou simbólico. O símbolo é o melhor recurso lingüístico para expressar significados abstratos, ou falar de realidades espirituais, que se situam fora do tempo. A linguagem religiosa é essencialmente simbólica. Falar de uma esperança além-morte, por exemplo, só é possível expressá-la simbolicamente.
            Além da expressão de significados simbólicos, o mito é a linguagem da força. O mito age de força muito significativa sobre a motivação humana. A fé religiosa é uma adesão a partir de uma convicção. Os ritos sempre acompanham os mitos. Eles marcam um comportamento exemplar. Nos mitos antigos, os ritos eram consideradas ações de imitação dos deuses. O rito representava simbolicamente a ação criadora, da respectiva realidade, por uma divindade. Os homens, realizando o rito, estão imitando a ação original do deus.

4.2 Mistérios
            O sentido convencional de mistério é o oculto, o secreto, o proibido, o enigmático. São situações e experiência que podem produzir na consciência o sentimento do mistério. Em termos religiosos, é o sentimento de absoluta surpresa diante do que é Totalmente Outro. Diante do sagrado o ser humano se depara com algo que extrapola toda e qualquer categoria familiar. Não é apenas o desconhecido, mas o que não se deixa conhecer, que não cabe em nenhuma categoria humana. Nada se equipara à realidade do sagrado.
            O sentimento do mistério provoca sentimentos opostos. O mistério se torna tremendo e fascinante. Esses estados emocionais são o sentimento religioso mais originário e eles têm uma força muito intensa sobre o nosso ânimo. O mistério religioso se constitui numa das mais poderosas forças de motivação humanas. Por isso, o mistério é o coração de uma religião. O que mantém uma religião é o mistério. Uma religião sem mistérios não se sustenta; como uma religião que enfatiza demasiadamente o mistério, com rapidez se transforma em fundamentalismo.
            A experiência mais forte desse elemento encontramos na religião dos mistérios greco-romana. No ano 69 a.C. Roma domina a Grécia e acontece a fusão cultural, consequentemente, religiosa. Com a fusão, os deuses passam a ter o nome grego e romano. Entre gregos e romanos eram cultos clandestinos, porque proibidos. Entre esses, o culto mais difundido e importante foi a Dionisos-Baco, o deus do vinho, da fartura e da alegria exuberante.
Em Roma o culto a Baco passou por três fases:
1ª Proibida: O culto era celebrado nos bosques, fora da cidade de Roma. Esse consistia em êxtases coletivos, provocando delírios e desmaios.
            Dizia-se: que nos bosques praticavam a homofagia (comer carne crua) e a antropofagia (comer carne humana). Sabe-se: que faziam sacrifícios humanos, especialmente de crianças. Essa certeza vem em vista dos esqueleto encontrados nos locais de culto.
            O culto era proibido e aí estava sua força de atração, por ser secreto e misterioso. No ano 197 a.C. foram presas 7 mil fiéis a Baco, especialmente mulheres da classe alta romana.
2ª Tolerada: Como a proibição casava o efeito inverso, o culto passou a ser tolerado. Esse período é marcado mais pela festa do mês das flores. O povo reunia-se fora da cidade, após vários dias de festejos, entravam em cortejo na cidade, levando a imagem de Dionisos-Baco. Essa festa comemorava a abertura oficial dos barris de vinho.
3ª Oficial: Como a festa do mês das flores atraia muitos turistas, o culto foi oficializado. Quando o culto é oficializado entra em decadência e desaparece.

4.3 Lugar Sagrado
            Entre todos os povos antigos há uma forte divisão do espaço cósmico entre sagrado e profano. Já em religiões surge a idéia de lugar sagrado. Assim, o lugar sagrado é um lugar reservado para os deuses no mundo dos homens (profano).
            Os lugares sagrados passaram por uma evolução ao longo da história:
1ª Altar: O altar é o lugar sagrado mais antigo, remonto aos tempos pré-históricos. Inicialmente era uma espécie de mesa de pedra ao ar livre. O primeiro sentido era ser o trono dos deuses, que ali sentavam para ouvir as pessoas. Mas o sentido mais próprio foi o lugar de fazer as oferendas e os sacrifícios aos deuses.
2ª Templo: Originalmente os templos foram pequenos abrigos para os altares. Só os sacerdotes podiam entrar no templo. Mais tarde os templos foram aumentados com abrigos para as pessoas.
3ª Santuário: O santuário era um pequeno anexo atrás do altar, que era a casa do deus supremo. Passou a ser o lugar mais sagrado. Só os sacerdotes especiais aí podiam entrar. Eles faziam adivinhações, curas e orientações para a vida.

4.4 Sacrifício
            A idéia de sacrifício vem dos sumérios e egípcios. O sacrifício é o tornar sagrado pela imolação sobre o altar. Portanto, é o ritual, cujo centro é a imolação. Eram seguidos cinco passos:
1º Lavar as mãos - significava um ato de purificação;
2º Chamar os deuses - era o momento de invocar os deuses por cânticos, danças e orações;
3º Imolação do animal - Primeiro, o animal era morto e recolhido todo o sangue; segundo, o animal era partido em duas metades: uma ficava de alimento para os sacerdotes e a outra metade era queimado sobre o altar. O ato de queimar sobre o altar é, mais propriamente, a imolação. Essa metade era destinada aos deuses depois de ser tornada sagrada.
4º Aspersão - As pessoas que assistiam o sacrifício eram aspergidas com o sangue do animal. Para os antigos a vida estava no sangue. Assim, era o ato de entrar em comunhão de vida com os deuses.
5º Despedida - o rito de despedida era levar flores ou ramos verdes para casa. Esse era um sinal de vida nova.



Aula dada por Odélio Bruno Birck PUCRS

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